FONTE: O Globo

Com pandemia, ganha força a inclusão de métricas que permitam avaliar o preço da degradação ambiental e as desigualdades sociais

LONDRES – A pandemia que varre o planeta há mais de um ano embaralhou a economia global como não se via desde a Segunda Guerra Mundial. Os países ainda tentam calcular a dimensão do estrago. O novo coronavírus expôs fragilidades sistêmicas que foram atropeladas pela necessidade constante de se promover o crescimento econômico a qualquer custo.

Especialistas e governos do mundo inteiro se debruçam agora sobre novos indicadores capazes de medir o progresso das nações na era pós-Covid, incluindo a qualidade de vida. E não há como ignorar o meio ambiente nesta conta.

O velho Produto Interno Bruto (PIB) — a soma de todas as mercadorias e serviços produzidos por uma nação —, criado no fim da década de 1930, continuará valendo no médio prazo. Mas já está claro que mostra apenas um lado da moeda: aquele em que não se veem rostos.

Ondas atingem um paredão em frente a edifícios em Taizhou, província de Zhejiang, leste da China. Os mesmos oceanos que nutriram a evolução humana estão prontos para desencadear a miséria em escala global alerta um projeto de relatório da ONU Foto: - / AFP

Ondas atingem um paredão em frente a edifícios em Taizhou, província de Zhejiang, leste da China. Os mesmos oceanos que nutriram a evolução humana estão prontos para desencadear a miséria em escala global alerta um projeto de relatório da ONU

 

Não capta desigualdades sociais nem mede o bem-estar do cidadão. Tampouco calcula o preço da degradação ambiental. E tudo isso afeta a economia como um todo, como realça a pandemia.

— A hora de mudar é essa. O PIB é útil para analisar o curto prazo, para medir fluxos e recursos, uma parte da atividade econômica. Não serve para contabilizar grandes estoques e ativos — diz Patrick Schröeder, pesquisador do centro de estudos Chatham House e especialista em economia circular, conceito que ganha adesão (e está no centro do atual projeto de desenvolvimento da União Europeia) ao prever um ciclo sustentável da matéria-prima ao consumidor.

Pressão de empresários

O PIB já não é o primeiro indicador para o qual os agentes dos mercados olham antes de investir. Cresce a investigação de riscos sociais e ambientais envolvidos nas empresas e nos países.

Uma demonstração disso foi a Cúpula do Clima, liderada na semana passada pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que direciona seu plano trilionário para recuperar a maior economia do mundo na direção da sustentabilidade.

A pressão do empresariado sobre o presidente Jair Bolsonaro em favor do compromisso do Brasil com essa agenda não é à toa. As companhias pensam duas vezes antes de aplicar em um país que não cuida de suas florestas, por exemplo. É uma demanda do próprio consumidor na ponta.

Nos anos 1990, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), com dimensões sociais como saúde e educação, surgiu como um contraponto à métrica de desenvolvimento puramente econômica por meio do PIB per capita.

A discussão sobre a inclusão da economia verde no PIB também surgiu há três décadas. Foi um dos temas da Rio 92, mas ganha nova força agora.

Membro da brigada de incêndio do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) tenta controlar um incêndio em uma área da floresta amazônica, em Apuí, no Amazonas Foto: UESLEI MARCELINO / REUTERS

Membro da brigada de incêndio do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) tenta controlar um incêndio em uma área da floresta amazônica, em Apuí, no Amazonas

 

Recentemente, um grupo de nações criou a Aliança para uma Economia de Bem-Estar, que pretende criar indicadores de desenvolvimento que envolvam qualidade de vida e ecologia, não só a atividade econômica.

O objetivo é captar o valor de empresas que garantam a vida digna dos seus empregados, tenham soluções para necessidades sociais e a recuperação da natureza.

O Brasil faz parte de outra iniciativa mais antiga de mensuração do progresso. É a das contas de capital natural, que utilizam o índice de estoque de águas, por exemplo, que já é calculado pelo IBGE, como monetizador importante da economia.

Água limpa é garantia de menos degradação do ambiente (o que impõe um custo financeiro alto ao país) e de maior capacidade de renovação da natureza.

China tem plano verde

No Fórum Econômico Mundial de Davos, no início deste ano, o presidente da China, Xi Jinping, falou em “alterar as forças motrizes e modelos de crescimento da economia, melhorar a sua estrutura de modo a levar para o centro um desenvolvimento de longo prazo, sólido e estável”.

A China, segundo dados apresentados ao fórum por John Kerry, enviado especial de Biden para o Clima, é responsável pelo financiamento de 70% das novas usinas a carvão no mundo com seu ambicioso plano de expansão global “Uma Estrada, Um cinturão”. Ainda assim, o gigante asiático tem uma estratégia verde.

Um dos países com uma das matrizes energéticas mais sujas do mundo, a China criou há alguns anos um indicador de PIB verde a partir do qual descontava da economia real os danos provocados pela poluição e por sua acelerada industrialização. Depois, passou a calcular o PIB da chamada energia verde (de fontes renováveis).

A iniciativa é boa, mas precisaria ser usada por todos para ter resultados globais.

O tom verde que Biden pretende imprimir à economia global já está presente nos pacotes de ajuda dos governos de vários países às indústrias abaladas pela pandemia. A França dá crédito com a condição de que se comprometam com o corte de emissões de carbono, por exemplo.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, tem destacado que, se o mundo não proteger a natureza urgentemente, a próxima pandemia estará “logo ali”. O aquecimento global provocará mais desastres ambientais e doenças zoonóticas, com origem no reino animal, como a Covid-19, segundo ela:

— O argumento financeiro é mais importante? Mais da metade do PIB global depende da biodiversidade e do ecossistema, do setor de alimentos ao turismo.

O economista Jim O’Neill, presidente do Chatham House e pai do acrônimo Brics (que agrupou Brasil, Rússia, Índia e China como potências econômicas emergentes), defende a ideia do “lucro com propósito”, que crie o compromisso de empresas com demandas sociais e com uma economia mais sustentável.

O ex-economista-chefe do Goldman Sachs, que trabalhou no mercado financeiro por duas décadas, tem menos simpatia por um PIB verde.

— É uma ideia que desencadeia paixões admiráveis. Mas não inclui, por exemplo, o desafio das superbactérias. Veja o momento que vivemos — disse ele ao GLOBO.

Foco também no social

O’Neill defende uma métrica pouco ortodoxa para o pós-pandemia: o PIB nominal, que não é ajustado pela inflação, que daria aos países mais liberdade para gastar, sem tanto impacto na dívida pública:

Segundo ele, muitos países tiveram problemas para se recuperar da crise de 2008 por restrições na relação dívida/PIB. O economista lembra que o Federal Reserve, o Banco Central americano, além da estabilidade de preços, passou a considerar o pleno emprego como uma meta. Isso dá novo peso à realidade social nas políticas econômicas.

— Esse é um debate que existe há 30 anos. Eu mesmo já fui contra. Mas a beleza disso está no fato de tirar o foco de apenas de uma meta, a de inflação — diz o economista.